Célia passava todo os dias no Aterro. Célia olhava o mar todos os dias. Como uma continuacão de sua própria existência rotineira, o mar, estava ali. Sempre. Testemunha e coadjuvante de um capítulo que não termina. Companheiro da sua constância, da sua permanência.
Olhando de lá, o mar, da janela do ônibus, era prova que sua escolha era coerente. Firme. Presente.
Cinco filhos, nenhum marido, dois empregos, nenhum gozo, um corpo útil.
Era um dia normal, com coisas normais e pessoas normais. Mas, ao olhar o mar esse dia, sua visão ficou turva nítida. E tudo o que via era o que era, mas deixando de ser o que era. Sensacao estranha essa de enxergar o que está antes, ou o que está depois. Tal qual um cego que vê.
Culpa do mar. Brincalhão doentio que tem mania de atormentar os espíritos calmos.
Chegando em casa, o refogado tinha gosto de peixe, o cheiro de mofo parecia enxofre, a luz do Sol, que entrava raramente pela janela, parecia fogo e os filhos tinham formato de borboleta morta.
Tomou uma cerveja, duas.. tomou quantas cervejas fossem necessárias para adormecer.
Ao acordar, a supresa: A visão tinha se tornado turva. Somente turva. Nunca mais deixou de ter febre.
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